agosto 11, 2010

Apple e iPhone 4G

Então o iPhone 4G saiu com uma, digamos, pequena falha de design. Dependendo de como você segura o aparelho, tipo assim, como se estivesse segurando um telefone celular, sua mão pode causar um curto-circuito na moldura metálica que serve de antena, o que pode atenuar o sinal telefônico, e por “atenuar” refiro-me aí ao mesmo sentido que o verbo teria em “o assassino ‘atenuou’ a vítima com um tiro na cabeça”. Ou seja, o sinal morre mesmo.

Tecnologia moderna é tão complexa que é difícil eliminar todos os problemas de um produto novo antes do lançamento. O XBOX 360, por exemplo, saiu com uma séria falha de projeto que fazia muitas unidades queimarem por sobre-aquecimento. O defeito foi um fiasco, mas a Microsoft assumiu a culpa, abraçou a causa, estendeu a garantia e trocou todas as unidades devolvidas.

Dada a escolha, é claro que prefiro um produto que não tenha defeitos, mas é invariavelmente nestas circunstâncias que conhecemos a verdadeira postura de uma empresa, e a postura da Apple é que sua mão, de polegar opositor, esta que seus antepassados passaram centenas de milênios aperfeiçoando, cuja interface com o usuário é tão intuitiva que sequer nota-se existir, bem, é esta sua mão que é incompatível com o aparelho perfeito que eles criaram.

No que diz respeito à Apple, o iPhone 4G é perfeito, logo o problema só pode estar no design da mão humana.

O diálogo da Apple com seus usuários foi mais ou menos assim:

  Fã da Apple: Ei, o sinal telefônico morre quando seguro o aparelho desse jeito!

  Apple: É só não segurar desse jeito.

  Fã da Apple: Ah tá, desculpa ai...

Fala sério, isso é um caso clássico de relação abusiva de co-dependência, popularmente conhecida como “síndrome de mulher de malandro”.

agosto 8, 2010

Audrey II



Este é um vaso de petúnias que temos em nosso micro-quintal, nos fundos de casa.

Bonitinhas as florzinhas, não?

Sim, são bonitinhas, mas não se deixe enganar por tamanho ar de inocência, pois é puro fingimento. Descobri ontem que petúnia é, possivelmente, uma planta carnívora, oh! — dizer “carnívora” é mais dramático que “insetívora”, mas de um jeito ou outro, o fato é que ela se alimenta de insetos.

Petúnias não chegam a ser tão ostensivamente predatórias quanto as dioneias (Venus Flytrap), mas talvez por isso mesmo haja um certo horror mórbido na sutileza indiferente com que elas consomem suas vítimas.

Você sabia que o tomateiro vem sendo considerado uma planta insetívora por alguns botânicos? Pois é, li uma reportagem sobre isso há algum tempo. Se você já observou um tomateiro de perto, as hastes são felpudas, cobertas por uns cabelinhos grudentos. Pois bem, a hipótese destes botânicos é que a função destes cabelinhos é capturar insetos. À medida que os insetos capturados morrem e apodrecem, seus restos caem no chão e fertilizam o solo em que a planta está. Ou seja, a princípio o tomateiro seria capaz de capturar o próprio adubo. Ainda, segundo os mesmos botânicos, tal estratégia é mais popular do que se imaginava, sendo usada por várias plantas, as petúnias aí inclusas.

Pois bem, ontem fui pegar um par de petúnias para colocar num vasinho dentro de casa e notei como a planta é bem grudenta. Notei também um inseto morto preso numa haste, e lembrei imediatamente da reportagem. Inspecionei a planta com mais atenção e, para minha surpresa, vi o banquete em andamento! Centenas de insetos grudados por toda a planta, a maioria minúsculos, quase imperceptíveis. Um massacre! Ao que parece temos uma planta voraz em casa e não sabíamos.

julho 14, 2010

Dirija com cuidado

Nossa intuição é um tanto ruim em inferir riscos, não é?

Por exemplo, uns 80% dos norte-americanos acha que a estação do ano mais perigosa para andar de carro é o inverno, por causa do tempo ruim, menos luz, mais chuva, neblina, neve, etc.

Não é. A estação mais perigosa é o verão.

A princípio, sabendo-se isso, pode parecer que o motivo seria as pessoas andarem mais de carro, o que aumentaria a exposição a acidentes. Só que não é bem isso. A principal razão, de novo, tem a ver com nossa inaptidão para inferir riscos: “falsa sensação de segurança”.

No verão, devido às melhores condições do clima, os motoristas correm mais, arriscam mais, e distraem-se mais com a paisagem, o que aumenta a gravidade potencial dos acidentes. Já no inverno, por causa das condições piores, o pessoal dirige com mais cautela. Ou seja, não é que há mais acidentes no verão, necessariamente, mas é que eles tendem a ser mais graves em média.

julho 12, 2010

Serviço de Utilidade Pública

Talvez a coisa mais importante a saber sobre atividades aquáticas é que um afogamento não se parece com um afogamento. Pelo menos não com aquele clichê cinematográfico de afogamento em que a pessoa grita por socorro enquanto acena os braços vigorosamente.

Um afogamento real é pavorosamente quieto na superfície. A pessoa fica fisiologicamente incapaz de gritar por socorro. O cérebro não deixa. Falar é uma função secundária e não essencial do sistema respiratório, e a vítima não consegue manter a boca fora da água por tempo suficiente para expirar, inspirar e então gritar. Do mesmo modo, a pessoa não consegue acenar, pois o cérebro instintivamente força os braços a pressionar a água para baixo, para tentar manter a boca acima da água. Durante um afogamento o cérebro entra num modo de emergência que impede que a pessoa tenha controle suficiente para articular um pedido de socorro a terceiros.

Nos EUA, afogamentos são a segunda causa mais comum de morte acidental de crianças abaixo dos 16 anos de idade.

julho 9, 2010

Não Nego a Raça, Mas...

Não Nego a Raça, Mas...

Para um brasileiro nato, não sou muito de futebol.

Sim, tem brasileiro que diz que não é muito de futebol, mas eu ganho.

Para ter uma idéia, ando tão por fora da Copa que na quarta-feira vi apenas de relance a Alemanha e Espanha jogando durante o almoço. Nem parei para assistir ao jogo, peguei a comida no refeitório e fui sentar do lado de fora, aproveitar o sol. Ouvi o pessoal gritar “gol” uma hora, lá dentro. No final da partida, olhei o resultado na internet, pelo celular. Vi que tinha terminado 1 a 0 para Espanha.

Até aí tudo bem, nada de extraordinário. Pois bem, quando vi o jogo de relance, não só achei que já era a final, como, sabe-se lá porque, achei que a Alemanha era a Holanda. Para ver como eu estava distraído, ou melhor, pouco me lixando. Na minha cabeça a Espanha já tinha sido campeã da Copa de 2010 havia dois dias. Só fui saber que a final ainda está por acontecer hoje de manhã, assistindo ao noticiário, que, por alguns instantes, achei fosse reprise.

Ganho o troféu, não?

Ou vai ver rolou um fator Desmond e eu vi o futuro. Se a Espanha vencer de 1 a 0 da Holanda, foi bem isso...

julho 2, 2010

Brasil

  • Neste momento há gente pisoteando tulipas no quintal de casa.

  • Vamos lá para o bar tomar uma com os amigos italianos e ingleses.

  • O Twitter está acima da capacidade neste momento, por que será?

  • Já notou que quando nosso time ganha é "nós ganhamos", mas quando perde é "eles perderam"?
  • junho 30, 2010

    Bichos Extraviados

    Deixaram um panfleto na porta de casa pedindo ajuda para localizar um gato perdido. A boa notícia, segundo o panfleto, é que o bichano foi avistado recentemente vagando pela vizinhança, então ainda há chances de ser encontrado vivo.

    Fiquei comovido com a situação. Deve ser muito angustiante saber que seu bichinho de estimação está perdido por aí, sabe-se lá em que condições. Torço para que encontrem logo o gato. Em todo caso copiei as informações e ficarei de olho.

    A julgar pelo número de cartazes de "procura-se", gatos desaparecem desproporcionalmente muito mais do que cães. Deve ser porque há muito mais gatos de estimação do que cães, certo?

    junho 21, 2010

    Divagando

    Quando alguém diz “minha mãe disse que se você não tem nada de bom a dizer sobre uma pessoa, não deve dizer nada”, obviamente este alguém não segue o conselho materno. Frisar que não há nada de bom a dizer sobre uma pessoa é, essencialmente, dizer algo de ruim sobre tal pessoa. Se este alguém fosse mesmo tão cavalheiro quanto pensa que é, diria simplesmente “não tenho nada a dizer”.

    junho 17, 2010

    Alô-Alô Motorista

    Entrou em vigor uma lei aqui no estado de Washington que proíbe o manuseio de telefones celulares por quem estiver dirigindo um automóvel.

    Ótimo!

    Quem sabe agora que estamos com as mãos menos ocupadas possamos usá-las para acionar o pisca com mais freqüência, quando apropriado. Que tal?

    Ainda assim, acho que a indústria automobilística devia inventar um pisca mais fácil de usar. O modelo atual é muito complicado. Os dois neurônios que preciso ativar para mover meu dedo 5 centímetros em cada direção... é muito esforço. Dois neurônios já é 100% da capacidade neural de muitos motoristas por aí. Não dá para dirigir e usar o pisca ao mesmo tempo. Depois, é muito sacrifício pessoal por tão pequena demonstração de consideração aos demais motoristas e pedestres. Antes fosse um clique de mouse para repassar uma corrente de email adiante, para me fazer sentir bem por fingir que ajudo o mundo sem necessariamente precisar fazer algo real a respeito...

    junho 1, 2010

    Lost

    O final de Lost não decepcionou. Por outro lado, não é como se eu esperasse muito. Pelo contrário, esperava bem pouco. Na medida do pouco que esperava, o final foi à altura.

    Tipo assim, já vi arremates piores, como as retcons de Highlander II: The Quickening, ou os midi-chlorians de Start Wars Episode I. Perto daqueles, os arremates de Lost foram... não tão ruins.

    O importante é olhar para o conjunto da obra, porém. Em sua totalidade Lost foi uma série boa em personagens, e ruim em ficção-científica.

    Sinto muito, fãs, mas no que diz respeito a séries de ficção-científica com foco em personagens, Battlestar Galactica foi melhor. Não que fosse perfeita, longe disso, mas soube dosar melhor o uso de dogmas e enigmas para explorar dilemas morais e dramas humanos. Isso porque parte dos “humanos” de Galactica eram andróides. Lost teve personagens muito bacanas, mas perto de Galactica a maioria deles parecia uma coleção de Pokèmons esperando cada qual a vez de servir sua habilidade especial ao [des]enrolar da trama, para então ser descartado em seguida.

    Para um show supostamente sobre personagens, Lost focou demais em enigmas. Sim, os enigmas eram muito bacanas, e foi o que atraiu e segurou muita gente no show. Só que a coisa toda perdeu muito a graça quando ficou claro, ali pela metade da série, que tais enigmas eram da boca para fora, vazios, sem essência, apenas uma colagem de símbolos e referências.

    Uma mitologia não é sobre colecionar símbolos, mas sobre explorar dilemas morais e nossa relação com os mistérios do Universo. Lost teve disso sim, mas a coisa foi um tanto incidental em meio ao desfile interminável de mistérios vazios. Lost criou mitologia por uma abordagem de “culto a carga”, imitando as conseqüências para tentar reproduzir as causas.

    O chato de Lost não são as perguntas que ficaram sem resposta. Galactica também deixou várias perguntas no ar, mas foi bem mais econômica na profusão de dogmas, e havia uma certa “lógica interna”. Não digo com isso que os autores de Galactica tinham resposta para todos os mistérios, ou sabiam o rumo da série desde o início, ou que a conclusão não foi derivada por engenharia reversa, mas pelo menos havia uma certa consistência na narrativa. Lost não teve essa “lógica interna”. É interessante como muito fãs continuam tentando desvendar os enigmas e significados da série como se houvesse mesmo substância sob a superfície. Não há. A aparência de substância é, em grande parte, um fenômeno de apofenia. Lost é como um videocassete paraguaio que você abre e descobre ser oco, os controles e displays externos são apenas decalques imitando elementos que os designers acharam bonitos.